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#BLABS4 MIN DE LEITURA

Intensidade, paixão e a arte de não se queimar apagando incêndios próprios

São 3:40 da madrugada e estou migrando versões de OTServ no mini PC, com a desculpa perfeita de “já quase, mais um arquivo”. Às 8:00 preciso estar acordado pro trabalho. Eu sei. Continuo igual.

Eu gosto de intensidade. Não digo isso com orgulho nem com culpa. Digo como quem se olha no espelho e reconhece o mesmo gesto de sempre: quando um problema me pega, o relógio deixa de existir. Um cabo de trinta metros porque “assim fica arrumado”. Um LXC novo às duas da manhã porque me ocorreu alguma coisa. Uma migração de dezesseis anos de dívida técnica num servidor de Dragon Ball porque, bem, por que não.

A paixão, bem olhada, é combustível. Mal olhada, é a desculpa perfeita para não priorizar nada.

No trabalho aplaudem a proatividade. Em casa também, até alguém notar que ser proativo em cinco frentes diferentes é só outra forma elegante de dispersão. Eu vivo num switch focus-mind constante. Coisa que não me incomoda de todo — de fato, me acostumei — mas o custo existe. Profundidade em troca de amplitude. E algumas semanas, nem amplitude nem profundidade: só ruído com forma de commits.

A intensidade sem direção se parece muito com overengineering. Parece produtiva porque tem movimento. Tem containers novos. Tem ideias. E no fim da semana, cansaço, mas pouca obra terminada.

O cabo de trinta metros é o exemplo perfeito, e eu digo isso com carinho pelo meu próprio ridículo. Eu poderia ter resolvido a conexão de outras formas, mais arrumadas, mais baratas. Escolhi a solução gigantesca porque a intensidade daquele momento pedia ação imediata, não a melhor decisão. Depois fiquei fora da minha própria rede várias vezes pelo mesmo atropelo.

A intensidade, quando não espera, cobra juros.

Voltemos às 3:40. Eu “terminei” a migração. Fechei o laptop com aquela sensação de vitória pequena e boba que só quem passou por isso entende. Às 8:05 tocou o alarme. Às 9:00 eu estava numa reunião de trabalho respondendo com monossílabos, com a cabeça em outro país. Às 15:00 percebi que eu nem tinha conseguido aproveitar os avanços da migração que tanto me tinham custado, porque estava demais destruído pra abrir o server e jogar cinco minutos.

Foi aí que entendi uma coisa desconfortável.

Eu tinha gastado toda a minha intensidade pra chegar, e não me sobrou nada pra ficar.

Que a paixão não substitui o design. Que a proatividade não substitui o critério. Que apagar incêndios que eu mesmo acendi às duas da manhã não é heroísmo: é má arquitetura pessoal, aplicada à minha própria vida em vez de a um sistema.

O WODBO me ensinou isso de outra forma. Usuários reais. Grafana subindo. Feedback de todas as cores. Estar disponível como GM a qualquer hora também é paixão. Também cansa igual. E também ensina que estar online o tempo todo não é o mesmo que fazer um mundo parecer vivo. Isso eu já contei. Aqui é a mesma lição, olhando pra mim.

Tem uma intensidade mais quieta, com menos cinema. A que volta a um problema no dia seguinte em vez de brigar com ele às quatro da manhã. A que aceita um MVP sem odiar. A que deixa um LXC desligado por default, porque nem tudo precisa viver ligado vinte e quatro horas só porque eu posso ligar.

No homelab, às vezes, essa intensidade serve só pra eu não me entediar numa terça qualquer. E tudo bem. O problema começa quando eu confundo entretenimento com avanço. Porque nem tudo que gera movimento gera progresso.

Antes de me meter em alguma coisa fora de hora, eu tento me fazer quatro perguntas simples.

Isso fecha um arco, ou me abre outros dez?

Pode esperar eu terminar o que já comecei na semana passada?

O LXC novo tem razão de existir na casa, ou só no meu ego das três da manhã?

Estou ajudando alguém a aprender — inclusive eu mesmo — ou só evitando me entediar?

Se eu não passo nesse filtro, não é paixão. É fuga com forma de terminal aberta. E a fuga disfarçada de intensidade é o burnout mais elegante que eu conheço, porque ainda por cima parece produtivo enquanto está te quebrando.

Nem sempre cumpro. Ontem à noite mesmo fiquei tentado a somar mais um exporter no Grafana só porque vi no X e deu vontade, sem que resolvesse nenhum problema real que eu tivesse. Dessa vez eu me freiei. Fechei o laptop. Fui dormir numa hora razoável.

Não foi heroico. Foi, simplesmente, a primeira vez em semanas que eu escolhi terminar alguma coisa em vez de começar outra.

Eu não quero ficar morno. Prefiro ficar preciso: ligar a intensidade com intenção, e desligar sem culpa, antes que seja ela quem me desligue.

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