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WODBO Wars: por que a Vercel não tem nem uma senha

Um amigo me perguntou onde o WODBO Wars estava hospedado. Eu disse Vercel. Ele ficou conforme por um segundo, e depois veio a pergunta que eu vinha evitando com conforto: “e então por que às vezes você tem que reiniciar alguma coisa quando quebra?”.
Foi aí que entendi que eu vinha respondendo errado há meses. O jogo não vive num lugar só. Nunca viveu. E faz pouco essa resposta mudou de novo.
A Vercel tem o portal. Só o portal. Astro, páginas estáticas, rankings, criar conta — aquela camada chata que qualquer um vê primeiro. Nada de banco de dados ali. Nenhuma variável com a senha do MariaDB. Nenhuma conexão direta com o servidor do jogo. O portal só chama uma API por HTTP, e pronto. É, honestamente, a parte que menos me tira o sono às três da manhã.
E isso não mudou. A Vercel não tem nem uma senha. Não porque eu seja um gênio de segurança. Porque o front não precisa de segredos para existir. Se alguém leva o portal, leva HTML. Não leva o mundo.
A API, por outro lado, começou em casa. Um LXC no homelab, PHP, HTTPS, MariaDB no mesmo container. Registro, login, personagens, perfis. E o Canary, o servidor do jogo, em outro LXC, escrevendo nessa mesma base, porque era a fonte da verdade de tudo. Começou assim pela mesma razão que eu já contei quando levantei o server: porque posso. Self-hostear, quebrar, aprender, mexer no mapa de madrugada. O lab era o lugar natural.

Fazia sentido.
Até deixar de fazer.
No meio do caminho apareceu o Turso, uma réplica na nuvem do que acontece no MariaDB. Rankings, jogadores online, essas coisas que podem ir uns segundos atrasadas sem que ninguém se importe. O login, não. Se o login lesse uma réplica com atraso, alguém poderia se registrar, entrar na hora, e se deparar com uma conta que “ainda não existe”. Um bug de usuário esperando acontecer, disfarçado de otimização. Então login e registro continuam indo direto pro MariaDB. Não por timidez. Por bom senso.
Hoje a API e o jogo já não vivem no meu quarto-escritório. Vivem numa VPS da Hostinger. O lab voltou a ser o que sempre deveria ser pra esse produto: experimental. O mundo, com gente dentro, deixou de depender de ter luz em casa.
Por quê? Porque eu não tenho UPS. E ponto. Soa pouco épico ao lado de falar de arquitetura, mas é a razão real. Eu vivo e me movo em zonas onde o corte de luz não é anedota pro Twitter: é parte da paisagem. Redes que piscam. Reinícios que você não pediu. E quando o LXC caía porque faltou luz, não era um incidente fofo de homelab pra contar depois com graça. Era uma quarta à noite, gente querendo jogar, mensagens porque o mundo tinha sumido. Ranking zerado. Login morto. Meu “porque posso” virado em “porque hoje teve luz”.
Foi aí que entendi uma coisa que o self-hosting romantiza pouco.
Tem uma diferença enorme entre quebrar coisas pra aprender, e prometer tempo livre pra outra pessoa.
O WODBO cruzou essa linha no dia em que deixou de ser só meu. Usuários reais, feedback constante, guilds, gente de madrugada — isso eu já contei. Este post é a consequência prática: se você vai pedir paciência pra alguém, não peça também que o seu bairro tenha eletricidade estável.
Mover o jogo pra Hostinger não foi desistir. Foi admitir que nostalgia não substitui um UPS que eu não tenho. O lab continua aí pra experimentar, migrar Canary de madrugada, testar besteira. A produção do mundo, não.
O que eu não antecipei no começo é que “porque posso” vira, com o tempo, plantão. Se a API cai, não é estético: é gente que não consegue entrar num jogo que escolheu pro tempo livre. Se o Turso trava, tem fallback pro MariaDB nos rankings, pra pelo menos alguma coisa aparecer. Esse fallback eu escrevi numa noite depois de meia hora de zeros no ranking e três pessoas me mandando mensagem preocupadas, como se o mundo tivesse esvaziado de uma vez.

Ninguém me obriga a manter. Eu mantenho porque em algum momento deixou de ser só meu.
Então no final eu disse pro meu amigo a verdade completa: o portal está na Vercel, sem nem uma senha. O jogo e a API estão na Hostinger, porque minha casa não tem UPS e eu não vou fingir que luz é SLA. E tem uma réplica na nuvem pro que pode ir um pouco atrasado. Cada peça está aí por uma razão que eu consigo explicar sem inventar nada.
Não é a arquitetura mais elegante que existe. É a que eu entendo, e a que sobrevive a um corte de luz numa zona remota. Num projeto que começou como nostalgia e hoje pede plantão de verdade, isso me basta.